Quarta Capa

Histórias curtas, flagrantes da vida e da cidade, poemas, uma sugestão lírica, um pedaço de arte que pode ser literatura e quer ser lida, como os trechos que os editores selecionam para exibir no fundo do livro – a quarta capa. Aqui, porém, um convite para nada, livro nenhum, ou para o livro que o internauta quiser completar sozinho...

domingo, setembro 03, 2006

UM DIA PESCADO NA MEMÓRIA

A praia um dia amanheceu cheia de medos:
aquela porção de águas-vivas que a maré trouxera,
aquele jardim liláceo que boiava na areia.

Era domingo. Nunca, assim, um domingo tão acre:
uma praia toda cercada de águas, como um lacre.
Fustigaram algumas com uns palitos de picolé.
Quando iam voltar, o menino engrolava a língua,
queria chorar, queria esmurrar o mar, queria...

Só restava lembrar de uma mulher com cobras na cabeça:
uma mitologia, ou quem sabe um desastre ambiental.

As águas-vivas agonizavam na areia, indiferentes.
Domingo, hoje digo, é um dia morto. Mas não eram.
Nem aquele, com sua fita roxa, cor de exéquias.
Num calendário amarfanhado vem marcado a vermelho

e ainda queima.

terça-feira, janeiro 03, 2006

MARIDO E PAI


Suzana volta do obstetra assustada. Diz que precisa ter uma “conversa séria” comigo – e desagradável, acrescenta.
Sinto me subir um frio. Mas não altero a fisionomia. Recolho os pés de sobre a mesinha de centro, meio envergonhado: essas posições de vagabundo. Olho firme, temendo pelo pior: que tenha sabido da confusão na lanchonete, e disso, de alguma forma, passado a meu caso com Magali.
Engraçado, penso logo em seguida: nem temi pelo meu filho! Quem sabe o doutor não tinha descoberto alguma anomalia?

sábado, novembro 26, 2005

NATAL EM NOVEMBRO

A novidade do Natal naquele ano, segundo Crisóstomo, era o abajur de fibra óptica. Havia em vários formatos, mas sempre com os filamentos fosforescentes, cujo balanço encantava os transeuntes. Como fazia sol forte naquela época do ano – era ainda final de novembro - Crisóstomo colocava o invento no interior da caixa de madeira que lhe servia de mostruário; ali, na semi-obscuridade, podia-se ver melhor o bailado brilhoso. Não, freguesa, a fibra óptica não precisa de pilha. Acredite em Crisóstomo.
Muita gente que passava na rua se detinha curiosa. Afinal, ele espertamente armara a banquetinha nas adjacências do grande shopping, bem à boca da passarela que ligava o centro comercial à rodoviária, verdadeira centopéia de entranhas descobertas, engolindo e defecando gente – não a rodoviária, mas a passarela. (O shopping já tinha decorado a fachada com um trenó de renas gigantesco, sem faltar a do nariz vermelho, estando Papai Noel mesmo depois da laje, rigorosamente no ar. Agora começavam a montar a grande árvore no centro da praça defronte, verdadeiro símbolo da cidade – não a praça, mas a árvore. Enfim, enquanto novembro ainda rebrilhava na lataria dos automóveis, gritava no estardalhaço das buzinas, atravessava o cruzamento em levas de gente que se batia e pisava, chegou de repente o Natal.)

quarta-feira, outubro 12, 2005

JOAQUIM, O CETÁCEO


Minutos depois, soube que tinha falado demais. Palavras que não queria e que não diziam o que procurara dizer... Saíam-lhe da boca, entretanto, com a mesma necessidade que as grandes baleias têm de filtrar entre os dentes a massa de água duma bocanhada. E constatou, como um grande cachalote deve fazer às vezes, que dentro de si ficara, ainda insaciada, a fome.

sábado, outubro 08, 2005

MINAVA LÁGRIMA NO CANTO DO OLHO


A harmonia é a grande lição das abelhas, dizia. Aí eu perguntei se na colméia era assim, todo mundo amontoado. Eu bem que sabia que não era, cada bebê tinha lá seu cantinho, aquele nicho pingando mel. Mas aí falou que outra lição das abelhas é o sacrifício. A vida para o trabalho, como a dele. Que, se não tinha erguido ainda o quarto de nós duas, era só porque a despesa da casa era grande, inclusive a despesa com nossa criação, a escola, a roupa, o remédio. Quanto à comida, ainda tínhamos de dar graças a Deus pelo mel, esse alimento. A geléia real e até a cera, lembrem-se da cera. Mas como esquecer da cera? Aquela ardência na pele e, depois que calmava, Mãe puxando a crosta cheia de pêlos. Minava lágrima no canto do olho. Ficava depois aquela placa vermelha nas axilas, manchas nas pernas. Uma hora sumia tudo. E a gente lisinha e durava muito tempo sem precisar.

terça-feira, setembro 20, 2005

CASAL


O rapaz esticou a perna. Procurava no bolso da calça a caixa de fósforos. Sacou depois um cigarro do maço no bolso da camisa, mas o vento, que soprava forte, não deixava acender...
- Faz barreira – pediu.
A mulher deu um muxoxo e armou as mãos em concha enquanto ele riscava o fósforo. A brasinha brilhou entre os dois, muito vívida.
- Você quer se casar comigo? – perguntou Marcos, tirando o cigarro para falar. Soprou para cima uma fumaça azulada. Parecia galante, como num filme antigo.
- Claro que eu penso em me casar.
- Sim. Mas eu perguntei: você quer se casar comigo?

segunda-feira, setembro 12, 2005

O ATALHO


Incrível como a cidade muda assim, subitamente. Uma entrada asfaltada, larga, murada; de repente uma curva – tudo se transforma. No caminho que o passante indicou, as casas já não têm caiação, nunca tiveram, mas é como se a tivessem tido e alguém lhes houvesse tirado à força: são paredes escalpeladas, tijolos expostos ao olhar como em carne viva. Margarida sente o coração apertado ante a visão terrível, sim, meteu-se numa favela...